Sobre as pequenas mortes de fim de ano

Eu e meu gato!

Minha gata tem 15 anos. Minha gata preta (toda bruxa tem um gato preto, certo?). O nome dela é… Preta. Era pra ser Nankin (sofisticado, não?) mas não combinava com a singeleza que é esse amor maluco que sentimos por alguns animais. Ficou “Preta” mesmo. Ninguém escolheu. O nome veio sozinho. Eu a ganhei tinha 18 anos. Uma coisa horrorozinha e peluda que gritava sem parar do meu lado na cama. Era pra ser um gato (macho), única condição que meu pai impôs. Ele não queria bebês gatos, de jeito nenhum. Daí, levei na veterinária e ela disse “é menina!” Na mesma hora, meu pai me colocou (eu e a gata) dentro do carro e estava resoluto a devolver o bichinho. Eu chorava copiosamente. Resultado: sem dizer nada ele deu meia volta e a gata tá aqui até hoje. Meu pai é o grande protetor dela. Sempre foi. Castramos a gata (prá garantir). Ninguém, nem a veterinária, conseguiu tirar os pontos da cirurgia. Eu tirei.

Um dia a Preta ficou desaparecida. Quase morri. Andei o bairro todo, chorei. Fiz promessa. Ela voltou prá casa 2 dias depois assustada, doente e com um olhar muito sofrido. Chegamos a conclusão que estava presa, fugiu e conseguiu achar o caminho de casa. Quando me casei, ela não veio morar comigo. Já era adulta, acostumada em casa, nunca se adaptaria a um apartamento. Resultado: ela ficou sem me olhar, sem “falar comigo”, sem vir no meu colo por quase um ano. Até me perdoar por tê-la abandonado. Demorou. Depois que me mudei prá Brasília, a Preta fala comigo ao telefone. Sabe quando sou eu e mia até que minha mãe passe o telefone prá ela. Então eu a chamo pelo nome e ela se esfrega no telefone, ronrona e faz charminho.

A Preta tem estado doente. Emagreceu muito. Cheguei em casa, depois de passar o ano todo longe, e a encontro triste, se escondendo pelos cantos, muito desanimada e com falta de ar. Gatos vivem muito, mas não prá sempre. Minha pequena companheira está se indo. Eu sinto que isso é um adeus.

Damos adeus a muitas coisas na vida. Amores, amigos, etapas que nunca voltam. Momentos que passam. O final de ano tem esse “Quê” de adeus. Uma pequena morte que nos lembra do que passou. Muitas vezes ficamos felizes com as conquistas, outras nos retiramos para pensar no que nunca mais será igual. Pequenas mortes em vida, como me disse um amigo. Necessárias para que novos nascimentos aconteçam. Novas coisas apareçam e novos começos tenham lugar.

Tento não ficar triste quando vejo a Preta. Ela me acompanhou por esse tempo todo, ouviu minhas lamúrias e minhas alegrias. Teve uma vida boa. Foi muito amada, se dedicou a mim e a minha família como poucos gatos o fazem. Sempre atendeu pelo nome, sempre foi me receber no portão. Os finais tem de ser assim. Uma alegria triste de quem viveu o que muita gente não vive. De quem experimentou o que muitos não conhecem. Amor de verdade, quando acaba ou quando é necessário que se acabe, deve ter esse misto de doce e amargo de uma lembrança alegre e de uma saudade que não se vai.

Não vou dizer pra você não pensar nas suas pequenas mortes de final de ano. É necessário que a gente pense, sim. Fique com elas no coração. Existe um luto por essas pequenas mortes que deve ser vivido. Pois se despeça com delicadeza, com doçura das coisas que não podem ser mais. Faça-o amorosamente. Serenamente. E as deixe. Elas também tem outras vidas pra viver, em outro lugar. De uma outra forma. Sem você. Pense nesse fascinante ciclo da vida como algo que te renova, que te faz mais triste, mas que também te faz mais forte. Que te densifica. E pense que o mundo não acabou, está aí, pra você. Feliz 2013!

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